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SÃO PAULO - Uma advocacia que cada vez mais se volta para o mercado e para o lucro, com trabalhos complexos, atuação altamente especializada e multidisciplinar, demanda de clientes de multinacionais e com formatos organizacionais e hierárquicos de empresas. Essa é a nova advocacia brasileira, inspirada em modelos internacionais e que deve crescer cada vez mais, seguindo a expansão econômica do País. Mas as grandes sociedades de advogados ainda convivem com muitos traços e características de uma advocacia tradicional, o que gera conflitos para os escritórios e para os profissionais que nela atuam.
O diagnóstico é do professor Clóvis Castelo Júnior, em sua dissertação de mestrado à Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas (EAESP-FGV). Ao entrevistar 22 advogados na faixa etária de 29 a 37 anos ele constatou que a hierarquia existe (advogado júnior, pleno, sênior e sócio), mas na prática ela é flexível e vai depender da experiência e conhecimento de cada um na atuação em determinado caso. "Nem sempre o sênior vai mandar", afirma.
Além disso, a subjetividade, classificada como um "ranço" da advocacia tradicional, também é marca. "Nem sempre o que é mais preparado tecnicamente vai subir na escala. Há ainda o peso de aspectos comportamentais, negociais e de relacionamento com os chefes. Além disso, uma grande informalidade na escolha dos sócios. O advogado que trabalha nessas grandes sociedades nem sempre tem certeza de que 'vai chegar lá' por conta dessa falta de critérios claros", diz o professor.Ainda de acordo com a pesquisa, os processos de trabalho são muito diferentes no mesmo escritório. Segundo ele, a transição de uma advocacia tradicional para a moderna não foi completa. "A tendência é se completar, quanto mais o trabalho se profissionalizar. Vão começar a perceber que a informalidade leva à ineficiência. Mas ainda é uma situação de transição e a perturbação deve continuar", diz o professor.
Transformações
As mudanças na advocacia empresarial foram rápidas. De acordo com Castelo, elas começaram nos anos 1990, com as privatizações e a abertura de mercado. Houve uma demanda de clientes globalizados e a estrutura para dar conta da demanda teve que se aproximar de um modelo empresarial.
Ao mesmo tempo, a mentalidade também mudou: a orientação para o lucro - embora não seja colocada de forma ostensiva, por ser proibida por lei - foi clara e o crescimento desse tipo de advocacia também foi grande. Ela deixou de ser independente para fazer parte do resultado do cliente. "A advocacia passa a ser estratégica e deve fornecer soluções", afirma.
A estrutura interna também é outra: os escritórios se "burocratizam" e criam áreas diferenciadas. Há ainda alguns que contam com administradores. A forma de realizar o trabalho jurídico também sofre grande mudança.
Antigamente, o trabalho tradicional era autônomo, individual e generalista. Agora, o trabalho é multidisciplinar, com atuação de equipes de vários especialistas. A autonomia do trabalho foi relativizada. A orientação para o lucro se apresenta em um novo mercado, altamente competitivo e agressivo. Os clientes, que pagam um alto preço, exigem respostas rápidas e disponibilidade dos profissionais.
O excesso de cobrança por rapidez e qualidade traz uma sobrecarga de tarefas, fonte de ansiedade.
"As grandes sociedades são extremamente elitizadas, um mundo a parte da advocacia tradicional. Um entrevistado comentou que eles vivem em uma ilha da fantasia. Outra estrutura, forma de trabalho e mais dinheiro", diz Castelo. É esperado uma expertise jurídica aliada a um aprofundamento em negócios, finanças, mercado de capitais, etc.
O conflito com a advocacia tradicional é grande. "É muito mal vista esse foco para o lucro", afirma. O conflito é também com a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), que proíbe atuação de bancas estrangeiras em parceria com escritórios do País e publicidade. "A tendência é que se flexibilize a longo prazo", prevê.
Embora seja pacificado que os profissionais aceitam as mudanças como forma de crescer e se firmar na carreira, a nova advocacia também é fonte de angústia para os profissionais. Especialmente por conta da grande carga de trabalho (o que impacta a vida pessoal) e por cobranças. "O direito não é uma ciência exata mas passa a ter compromisso com a precisão. O advogado não pode garantir resultado porque não depende só dele e os resultados são incontroláveis", diz o professor.
Por Andréia Henriques (DCI) |